Os segredos para aproveitar melhor a sua caminhada

É impossível barrar a passagem dos anos. No entanto, podemos apreciar a vida, alimentar paixões, manter o olhar curioso e ter a liberdade de ser quem somos — hoje e sempre

Ana Holanda

Os segredos para aproveitar melhor a sua caminhada | <i>Crédito: Shutterstock
Os segredos para aproveitar melhor a sua caminhada | Crédito: Shutterstock
Conforme a vida segue seu curso, uma pergunta fica cada vez mais presente na cabeça da gente: afinal, como envelhecer com plenitude, aproveitando o melhor da caminhada, como diria a poetisa Cora Coralina? A socióloga, jornalista e escritora inglesa Anne Karpf, autora do livro Como Envelhecer (ed. Objetiva), dá uma pista: para amadurecer bem é necessário falar sobre aquilo que mais nos apavora, enfrentar medos, barreiras dentro e fora da gente. E envelhecer e morrer estão entre os temas que mais nos amedrontam — por mais irônico que isso pareça, pois, se existe algo certo é que vamos envelhecer e morrer. O problema, segundo Anne, é que gastamos energia demais na luta contra a passagem do tempo, e que poderíamos dedicá-la a viver de uma forma plena. “Para um grande número de pessoas, envelhecer significa empobrecer, o que, por sua vez, impede os mais velhos de viver os prazeres e a plenitude da vida”, escreve.

Mudança de foco 

Mas por que, afinal, temos tanto receio de ver a pele ficar flácida e os cabelos, brancos? Um dos fatores é cultural e é algo que perpetuamos, todos os dias. Quando se fala em alguém com 70, 80 anos, em geral usamos ícones relacionados a enfermidades: pessoas encurvadas, com olhar triste, solitárias, usando bengala. “As pessoas mais velhas costumam ser identificadas não pelas suas capacidades, mas pelas deficiências”, explica Anne. Para piorar a situação, fala-se muito sobre “como ficar fabulosa aos 50”. São recomendações que não nos desafiam, mas tentam apenas nos ensinar como maquiar ou encobrir os sinais da velhice. Como vamos, então, lidar bem com o próprio envelhecimento se olhamos para isso com medo e sem admiração por quem já chegou a essa fase da vida? A convivência pode ser um caminho lindo, e alguns projetos espalhados pelo mundo já apostam nela. É o caso da Generations United, uma organização americana que coloca idosos para conversar com jovens e crianças e, juntos, debaterem soluções para a comunidade. A ideia é aproximar e fazer com que as pessoas percebam que têm muito a aprender e a ensinar em qualquer fase da vida. Essa troca evita que as engrenagens do cérebro, bem como as nossas ideias, enferrujem.

Bem na própria pele 

Até o momento a ciência ainda não descobriu como evitar que o corpo envelheça. O que torna isso difícil é o fato de nossa sociedade supervalorizar a juventude – o que costuma ser mais perverso para quem vive em torno da aparência. No entanto, envelhecer não é só um processo fisiológico, é também psicológico, intelectual e cultural. Há anos, a antropóloga Mirian Goldenberg (RJ) se dedica a entender não apenas a velhice mas a liberdade de poder ser aquilo que se deseja em qualquer idade. Seu último livro, Velho É Lindo! (ed. Civilização Brasileira), traz na capa um casal de idosos pelado, de braços para cima (numa expressão de contentamento). Sim, é uma provocação. “De biquíni ou de maiô, minissaia ou calça jeans, o que interessa é que somos cada vez mais livres para reinventar a nossa ‘bela velhice’. E para mostrar, aos velhos de hoje e aos de amanhã, que ‘velho está na moda’; mais ainda, que ‘velho é lindo!’”, escreve Mirian para, em seguida, citar a passagem de uma entrevista com a atriz Marieta Severo. “Vejo tanta gente preocupada em colocar Botox® na testa. Eu queria poder colocar Botox® no cérebro. Tenho verdadeiro pavor de perder a capacidade mental, é isso o que mais me assusta quando penso na velhice. Quero ser uma atriz velha com capacidade de decorar um texto, quero ser lúdica na vida e na família”. É para pensar...

Deixar ir 

Entender a passagem do tempo também tem relação com o desapego. Para Anne Karpf as pessoas que envelhecem melhor são aquelas que carregam menos coisas ao longo da jornada. Isso significa ter a capacidade de se livrar de ideias, conceitos, verdades. “É necessário certa flexibilidade de espírito. Só que desapegar-se de velhas narrativas pode ser extremamente doloroso; envolve luto pelo que nunca aconteceu assim como pelo que aconteceu, e admitir fracassos, pontos de vista errados. Exige que reconheçamos que não controlamos o desenrolar da vida”, diz. Não é só isso, claro. Conforme os anos se adentram, as perdas são inevitáveis. Amigos, pessoas queridas e histórias se vão. Daí um ponto importante: saber se reinventar, descobrir delicadezas na trajetória mesmo diante das adversidades e manter o olhar curioso. O tempo dá a possibilidade de construir, reconstruir, de se descobrir, descobrir o outro, rever posturas. Se pensarmos assim, entendemos que envelhecer não se trata de colecionar rugas, mas experiências de todos os tipos. E isso pode ser bem bacana se soubermos tirar proveito.

19/07/2017 - 08:30

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