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Comportamento » Corpo livre

Afinal, por que o corpo gordo incomoda tanto?

Entrevistamos a modelo Bia Gremion e a pesquisadora Malu Jimenez para falar sobre gordofobia e resistência

Ivana Guimarães Publicado em 11/08/2020, às 09h00

A influenciadora digital e modelo Bia Gremion, de 23 anos
A influenciadora digital e modelo Bia Gremion, de 23 anos - Instagram

Na última terça-feira, 28, a modelo Bia Gremion teve sua foto utilizada indevidamente pelo comediante Leo Lins. Na imagem, a influenciadora aparece ao lado de seu namorado Lorenzo, compartilhando uma mensagem de amor-próprio e mostrando seus corpos livremente.

 

O humorista, que se reconhece como o “rei do humor negro”, divulgou seus shows na legenda da publicação e fez piada com o casal. Bia é uma mulher cis gorda e Lorenzo, um homem trans. A partir dessa postagem, a dupla recebeu diversos ataques gordofóbicos e transfóbicos na internet.

Em suas redes sociais, a criadora de conteúdo afirmou que registrou um boletim de ocorrência contra Leo no 52º DP, em São Paulo e neste domingo, 2, ela anunciou que Lins apagou a imagem por conta de uma notificação judicial.

O fato é: mulheres gordas e bem resolvidas incomodam, né? Mas de onde vem esse sentimento?

Para explicar, nós, da Máxima Digital, conversamos com Bia e com a doutora em estudos de cultura contemporânea, Malu Jimenez. Malu é idealizadora do projeto Lute Como Uma Gorda e fundadora das redes sociais @estudosdocorpogordo.

 
 
 
 
 
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Fotografia @salomonmoralescano

Uma publicação compartilhada por Lute como uma gorda (@estudosdocorpogordo) em

 

Segundo a especialista, a gordofobia associa o corpo gordo a um corpo doente e  inferior: “A gordofobia é um estigma estrutural e institucionalizado contra pessoas gordas. Isso significa que esse preconceito está em todos os lugares. Ela é como se fosse uma cebola, algumas camadas nós percebemos, como os xingamentos e ataques. Mas, existem camadas imperceptíveis, pois sempre vêm disfarçadas de cuidado e saúde.”

Para a modelo, quem se incomoda não consegue imaginar pessoas gordas tendo uma vida considerada normal: “Eu acho que a sociedade ainda tem a ideia que o gordo é uma pessoa desleixada e que se sente mal com o próprio corpo. Ela não nos imagina sendo livres sexualmente e tendo prazer de várias formas.”

“O corpo gordo incomoda porque ele rompe com o padrão estabelecido socialmente. Se pensarmos que tipo de corpo é considerado bonito e saudável, é o magro, branco e heterossexual. A sociedade acredita que quem está fora do padrão deve estar triste, em casa, doente e depressivo. E quando ele aparece de outra maneira, como empoderado e feliz, causa um estranhamento”, explicou Malu.

Mas, qual a graça de ridicularizar pessoas gordas nas redes sociais? A pesquisadora afirmou que o objetivo é ganhar visibilidade: “Na minha tese eu estudei o ativismo gordo através das redes e observei que marcas/pessoas se aproveitam da visibilidade que ganham ao atacar outras pessoas. Na maioria das vezes, esses indivíduos acabam pedindo desculpas depois, chamam alguém, tratam o assunto de forma superficial e acaba não dando em nada para eles no final. Eu acredito que a melhor maneira de reagir a isso é uma discussão judicial, inclusive estou montando uma associação para a representação ser mais forte.”

“Eu ainda não entendi se a motivação é culpabilizar as pessoas para que elas emagreçam ou continuar rindo delas. Só que hoje em dia as coisas mudaram, nós temos orgulho da nossa singularidade e da nossa vida. Continuar ouvindo esse tipo de piada é retrocesso e a gente quer andar para frente. Penso que a melhor forma de reagir a esses ataques é confrontando e questionando”, refletiu Bia.

Daqui para frente, Malu entende que é necessário construir novos saberes: "Todos precisam entender que a ciência, qualquer uma delas, não se trata de algo estagnado. Ela vai se transformando e nem sempre acerta. Já existe outra maneira de fazer ciência incluindo todos os corpos, questionando esse estigma que se criou quando se considerou o gordo doente. Por trás da patologização desse tipo de forma física existem pessoas reais que sofrem.” 

“Acredito que todas temos que ter orgulho de nossos corpos, independentemente do que acham, e estar sempre em relacionamentos saudáveis em que somos respeitadas”, concluiu Bia, provando que essa luta não vai parar por aqui! 

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