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Comportamento » A Fazenda

Comentários sobre corpos de peoas na 'A Fazenda' levanta discussão sobre gordofobia

Após a repercussão da conversa de Cartolouco, falamos com o nutricionista Cezar Vicente Jr. sobre gordofobia e a saúde do corpo gordo

Bruna Goularte com supervisão de Marina Pastorelli Publicado em 10/09/2020, às 19h28

Suposto comentário gordofóbico na 'A Fazenda' levanta discussão sobre saúde do corpo gordo
Suposto comentário gordofóbico na 'A Fazenda' levanta discussão sobre saúde do corpo gordo - Reprodução/ Record

Nesta quinta-feira, 10, em A Fazenda 12 um peões causou confusão na web. Na ocasião,  Cartolouco, o Lucas Strabko, teve uma conversa com Juliano Ceglia sobre o corpo da cantora JoJo Todyinho e das outras meninas do reality show.

Tem umas meninas muito bonitas aqui, muito bem cuidada”, começou a dizer o ex-apresentador durante um bate-papo na cozinha com o peão Juliano Ceglia. Porém, no primeiro momento, quando a conversa chegou à Jojo, os internautas entenderam que ele havia sugerido uma cirurgia bariátrica para a funkeira. 

Após a repercussão da conversa, ele foi questionado por telespectadores e acusado de gordofobia contra a carioca, por sua suposta opinião e falta de embasamento médico.

No entanto, o perfil oficial do ex-jornalista da Globo uma verificação da situação para demonstrar que ele não disse a frase polêmica. No vídeo legendando, a conta oficial mostrou que ele falou: "Eu NÃO acho que ela deveria fazer uma bariátrica. Não é perigosasso?".

E acrescentaram: "É bem claro de ouvir, vai? Tudo foi falado com o maior respeito e cuidado, sem qualquer tom de preconceito ou discriminação, sempre com preocupação, e com a curiosidade que vocês já sabem que o Lucas tem. Cuidem dos bichinhos e usem cotonete".

 

Lucas não sugeriu uma cirurgia como veiculado anteriormente, mas manifestou uma opinião sobre o corpo de uma outra pessoa sem ser solicitado - e sem ter o menor conhecimento médico e nem do histórico de saúde da cantora. Mesmo assim, o caso levantou uma polêmica nas rede sociais sobre a gordofobia velada e a sociedade associa corpos fora dos padrões como não saudáveis.

Pensando nisso, nós da Máxima Digital, conversamos com o nutricionista Cezar Vicente Jr. , especialista em transtornos alimentares e nutrição humanizada, para falar sobre o gordofobia e a saúde do corpo gordo.

Segundo o especialista, as representações do que um corpo significa são construídas socialmente, não é escolhido individualmente. "Existem estudos que trabalham sobre essa temática e indicam que o corpo gordo representa socialmente muitas coisas ruins: feiura, descuido, baixa autoestima, preguiça, sujeira, bom humor, etc. Esse é um grande problema, afinal o formato de um corpo não pode dizer sobre qualquer coisa além de que ele é um corpo com aquela forma específica, e ponto. Nada mais do que isso", avaliou.

Outro ponto avaliado pelo profissional é a genética de cada pessoa. Por exemplo, ela pode se manifestar de muitas maneiras no corpo, inclusive influenciando a forma que o nosso corpo tem - desde a distribuição de gorduras e de músculos, a facilidade ou dificuldade que existe entre ganhar peso ou perder peso, como os diferentes nutrientes agem no nosso metabolismo.

"Os hábitos relacionados a alimentação e atividade física interagem com nossos genes, tanto os genes são capazes de influenciar em questões do corpo físico, quanto a alimentação. Por exemplo, a influência de qual gene vai se manifestar mais ou menos em cada questão do corpo físico. Infelizmente, não é uma caixinha de escolhas onde decidimos o que vai ser ativado ou não", apontou Cezar. 

Afinal, o que é ser magro e gordo?

O nutricionista explicou: "A categoria 'magro' e 'gordo' é subjetivamente bastante discutível no senso comum. O que cada pessoa considera magro ou não, muitas vezes pode fazer com que existam controvérsias. Existem duas problemáticas aqui quanto a categorização: o primeiro é que os 'critérios' para ser considerado uma pessoa magra estão cada vez mais exigentes. O olhar sobre o corpo é seccionado (o braço, a perna, a barriga, etc) e daí isso gera discordâncias sobre".

"O segundo é que essa categorização coloca um cenário de dicotomia entre os corpos, como se só fosse possível existir dois volumes de corpos diferentes, então toda a pluralidade intermediária entre um corpo magro e um corpo gordo “inexistente”, fazendo com que muitas pessoas que não se percebem ou não são percebidas como magras, automaticamente caiam no lugar de se categorizarem como pessoas gordas", elencou.

Para o nutricionista, é preciso entender mesmo que a palavra gorda/gordo tenham sido usada historicamente como ofensa, e, por isso, o desconforto para o outro, estamos falando apenas de uma característica física, neutra.

"Nas ciências da saúde, existe uma categorização por um índice chamado IMC, esse índice não usa as palavras 'gorda' e 'magra'. Usa termos como sobrepeso, obesidade e baixo peso - dando um caráter diagnóstico para um formato de corpo", falou.

Cezar acredita em uma nutrição mais humanizada e, do seu ponto de vista, esses termos são um problema. "Usem outras referências menos estigmatizantes para avaliação da saúde da pessoas, além de sugerir alguns cuidados para lidar com conversas sobre o peso das pessoas atendidas. Note que a principal diferença é que na saúde a base teoricamente é o peso (número da balança) e quando falamos das assunções sociais a base é o corpo e o julgamento sobre ele", ponderou.

Mas, e o que é preciso para ter uma vida saudável?

Cezar indicou: "É bastante individual. Só quando a gente pensa em alimentação, por exemplo, meu corpo pode necessitar de mais água que o seu para funcionar plenamente. Além disso, ser saudável não tem relação apenas com um corpo orgânico operando perfeitamente, isso se chama 'ausência de doenças' e desde a década de 90 a Organização Mundial da Saúde conta que pensar saúde dessa forma é um problema, pois exclui questões de ordem da saúde mental, sociais e inclusive espirituais que tem relação o estado de saúde"

"Saúde, assim como as doenças, são processos e não um lugar em que chegamos. Guardadas as devidas especificidades, alimentação adequada e exercício físico em doses adequadas são pontos importantes para ter saúde. Importante dizer que alimentação adequada é bem diferente de fazer dietas, e que saúde é bem diferente de ter um corpo magro", disse.

De acordo com o especialista, usar o número da balança para justificar a relação do peso com a saúde. A situação é muito mais complexa do que 'um corpo gordo está doente' e 'um corpo magro está saudável' - é preciso de outras determinações para avaliar a saúde da pessoa. 

"Uma pessoa que fez cirurgia bariátrica e perdeu bastante peso, por exemplo, pode ter deficiências de nutrientes importantes em seu corpo, mesmo assim pode ser lida como uma pessoa magra, portanto, saudável, mas essa leitura é extremamente problemática, pois além de estigmatizar o coro gordo sempre como doente, assume que a pessoa magra está sempre saudável e não precisa de cuidados", falou Cezar.

O IMC (Índice de Massa Corpórea) considera apenas o peso e altura, e assim não é um bom parâmetro para análise da composição corporal, para o o nutricionista: "É problemático para todo mundo. O IMC em si é um parâmetro bastante problemático de ser usado e muito enviesado, mesmo assim largamente utilizado pelos profissionais para detectar problemas que envolvem alimentação. Seu uso vem sendo cada vez mais questionado ao longo do anos pela comunidade científica".

Segundo estudos recentes, cada vez mais que hábitos, tais como: fumo, alimentação, atividade física, meditação, estão muito mais ligados com saúde, com uma avaliação global do que apenas o cálculo de um peso na balança e altura, como o IMC.

"A saúde, a gordura e peso não dizem sobre a nossa moral, se estamos nos cuidando mais ou menos. Os nossos hábitos relacionados a saúde tem muita relação com a nossa história, e as nossas possibilidades de vida do que qualquer outra coisa. Obviamente uma pessoa pode se engajar em hábitos (ações) ligadas a saúde, mas tem um monte de coisas envolvidas nesse processo de decisão. Decisões ligadas a saúde podem ser tudo menos simples, em especial aquelas ligadas a alimentação humana", explicou.

Por fim, Cezar questionou sobre o que cerca pessoas gordas e como ela é vista na sociedade: "A questão central é: o que mata mais é a quantidade de gordura que uma pessoa tem, ou o fato de ser ridicularizada em um programa de TV? Ou de ir em atendimentos médicos e não ter equipamentos para ser atendidas? Ou ter sua alimentação questionada frequentemente? Ou não encontrar roupas para usar? Questões de saúde não são simples", 

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