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Amor no Espectro: O que você precisa saber sobre como pessoas com autismo se relacionam

A psicopedagoga Carol Mota e a pesquisadora Jéssica Coelho explicam a importância do tema para uma sociedade mais inclusiva

Ivana Guimarães Publicado em 24/08/2020, às 16h20

Série Documental Amor no Espectro
Série Documental Amor no Espectro - Northern Pictures/ABC/Netflix

Se para muitos a coisa mais importante no mundo é o amor, então, por que se acredita que pessoas que estão no espectro autista não estão interessadas em relacionamentos? 

A série documental australiana Amor no Espectro, que estreou na Netflix nos últimos tempos, traz luz para esta questão, mostrando histórias de jovens com autismo em busca de parceiros românticos com a ajuda de suas famílias e de especialistas.

E para falar mais sobre a produção e desfazer alguns mitos sobre o tema, nós, da Máxima Digital, conversamos com a pesquisadora e produtora de conteúdo sobre Análise do Comportamento Aplicada, autismo e ciência Jéssica Coelho, dona da conta @psi.jessicacoelho no Instagram. E também com a psicopedagoga e doutoranda em Psicologia Cognitiva Carol Mota, que comanda o @autismoeeducacao.

 

Para Jéssica a importância de produções como Amor No Espectro está na questão da representatividade: “A série tenta trazer representatividade através de autistas reais, demonstrando o que significa o termo “espectro autista”, isto é, fica claro que nenhum autista é igual a outro e que suas dificuldades são distintas. Sem isso, preconceitos seguirão sendo perpetuados, causando sofrimento, dificultando a inclusão de pessoas com autismo e atrasando diagnósticos.” 

Na visão de Carol, o documentário acertou em cheio ao ouvir jovens com diagnóstico de TEA (Transtorno do Espectro Autista). "O lugar de fala das pessoas no espectro se mostra como um aspecto crucial, pois é preciso oportunizar que sejam ouvidas do lugar que ocupam socialmente. Nesse caso específico, jovens adultos com TEA foram ouvidos enquanto exploraram o imprevisível mundo dos relacionamentos (aspecto desafiador no transtorno), o que foi muito instigante para o público, ampliando a curiosidade e interesse em conhecer sobre a temática. Esse aspecto é muito importante para disseminar conhecimentos sobre o transtorno, o que possibilita a construção de uma sociedade inclusiva, que respeita à diversidade", explicou.

Mas o que a sociedade ainda precisa saber sobre como esses indivíduos se relacionam? “Primordialmente, que pessoas com TEA se relacionam. Com isso claro, algumas considerações podem ser tecidas. Autistas têm déficits de comunicação e interações sociais que podem ser expressos de variadas formas dependendo do indivíduo, como dificuldade em ajustar o comportamento para se adequar a contextos sociais diversos, déficits na discriminação de componentes paralinguísticos utilizados para interação social (entonação de voz, gestos, expressões faciais, linguagem corporal, etc), dificuldade em tomada de perspectiva (entender situações sob o olhar de outra pessoa), entre outros. Essas características, dependendo das circunstâncias, podem tornar a interação social um desafio para alguns autistas. Mas, isso não significa que habilidades sociais não possam ser aprendidas tanto por eles quanto por nós, neurotípicos”, esclareceu Coelho.

Você já ouviu que autistas não têm empatia? Carol Mota afirmou que esta é uma afirmação simplista: "Socialmente vivenciamos um contexto em que a maioria das pessoas não conhece o Transtorno do Espectro Autista, isso implica afirmar que existem muitas crenças e visões simplistas a respeito do autismo. Não é porque as pessoas com TEA apresentem comportamentos de forma diferente do usual, que não sintam ou percebam o contexto. Quem tem/teve mais chance de falar e ser ouvido na sociedade? Quando a série traz pessoas com TEA falando do lugar social que ocupam sobre como se sentem em relação a vários aspectos, desconstrói muitas das crenças sociais sobre pessoas com autismo, e ninguém melhor que quem vivencia o transtorno para fazer emergir essas reflexões."

E como quem convive com pessoas autistas pode ajudá-las a se relacionar melhor? “Primeiramente, ouvindo-as. Não existe uma regra. Se você conhece alguém no espectro e se relaciona com essa pessoa, seja um familiar, seja amorosamente ou como amigo, pergunte se ela sente algum desconforto ao estar com outras pessoas em determinadas situações de interação social e se você pode ajudar em algo para que isso não seja uma questão na relação de vocês (não de forma invasiva, claro). Em casos de autistas “não-verbais”, observe como os seus comportamentos o afetam e converse com pessoas que já o conhecem”, recomendou Jéssica.

“Existe um equívoco de que as pessoas no espectro autista não estejam interessadas em interagir e se relacionar. Embora os momentos de interação das pessoas no espectro aconteçam de modo não usual por conta dos desafios na área de linguagem, próprias do diagnóstico e que se refletem no ato comunicativo, um dos fatores que distingue pessoas com autismo de pessoas sem autismo não é o fato de não interagirem com os outros ou formarem relacionamentos, mas sim o modo peculiar como as interações acontecem. Porém, é possível perceber que há intencionalidade e que os interesses (como bem explicitado na série) são a chave para prolongar as interações, a comunicação e construir novos relacionamentos. Seguir seus interesses para ampliar a partir deles as áreas desafiadoras em contexto dinâmico parece-me o caminho mais apropriado, pois é preciso lembrar que cada pessoa responde à sua maneira a um mesmo conjunto de circunstâncias”, finalizou Carol.

Jéssica Coelho é graduanda em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense. Atualmente faz estágio em intervenção baseada em Análise do Comportamento Aplicada ao autismo e em Avaliação Neuropsicológica de crianças, adultos e adolescentes. É bolsista de Iniciação Científica pelo CNPq em uma pesquisa que envolve Avaliação Neuropsicológica e Teoria da Mente. Apoia a democratização do acesso ao conhecimento científico e, assim, produz conteúdo sobre Análise do Comportamento Aplicada, autismo e ciência em seu instagram (@psi.jessicacoelho), além de contribuir em alguns projetos como o @capacitaskinner e @gactorr.

Carol Mota é pedagoga, psicopedagoga Clínica e Institucional, terapeuta DIR/Floortime 201 ICDL/USA, mestra em Educação, Culturas e Identidades, doutoranda em Psicologia Cognitiva e criadora de conteúdo no instagram @autismoeeducacao.

 

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