E-RAIVA: Esbravejar nas redes é nocivo

Essa emoção sempre existiu. Mas, em tempos de internet, parece até que virou moda esbravejar por aí. A verdade é que não devemos esconder nem levantar a bandeira da raiva, mas aprender a modulá-la

por Ivonete Lucírio

E-RAIVA: Esbravejar nas redes é nocivo | <i>Crédito: SHUTTERSTOCK
E-RAIVA: Esbravejar nas redes é nocivo | Crédito: SHUTTERSTOCK
Será que estamos ficando mais raivosos? “De modo geral, o sentimento é uma consequência direta do estresse. À medida que a pressão aumenta na sociedade, também a raiva surge com maior frequência”, responde a psicóloga Marilda Novaes Lipp, presidente do Instituto de Psicologia e Controle do Stress (SP) e autora do livro Stress e o Turbilhão da Raiva (Casa do Psicólogo). Um item a mais, contudo, parece engrossar esse caldo: em tempos de redes sociais, e-mails e SMS, é possível expressar qualquer sentimento sem olhar nos olhos de ninguém. É a chamada e-raiva, ou e-anger, termo cunhado pela psicóloga americana Louise Doncaster, em 2003. “A tecnologia moderna tirou o olho no olho”, diz Marilda. E isso diminui o filtro na hora de dizer aquelas verdades iradas — sendo elas justas ou não. Mas engana-se quem pensa que extravasar o sentimento na web possa trazer alívio ou outras consequências benéficas. Dois estudos feitos pela Universidade de Wisconsin (EUA) atestaram que escrever ou ler comentários raivosos em sites de notícias, redes sociais, fóruns de discussão ou blogs não é uma prática saudável. Segundo o levantamento, quem faz disso um hábito torna-se mais nervoso, frustrado e com um estilo de vida menos ajustado que o normal.

REAGIR PARA AGIR
Vale lembrar que a emoção faz parte do rol de ferramentas primárias com as quais todo ser humano já nasce, juntamente com o medo, a alegria, a tristeza e a surpresa. Muitas vezes essa emoção surge como uma reação biológica. Os hormônios do estresse são liberados no sangue. A respiração e os batimentos cardíacos se aceleram. As pupilas dilatam e a corrente sanguínea se concentra ao redor dos músculos. “Esse estado físico e emocional serve para mobilizar o sistema nervoso para um determinado objetivo, aumentando o que chamamos de fitness do organismo. Ou seja, a pessoa passa a ter maior chance de êxito num contexto ambiental específico”, explica o psiquiatra Márcio Bernik, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. E esse contexto pode ser o mais variado, passando pela necessidade de mostrar as garras para se sair bem num emprego, enfrentar quem ameaça aqueles que você ama ou quem está ocupando um espaço que julga ser seu. 

EQUILÍBRIO DO BEM
Ninguém está dizendo que a raiva precisa ser engolida. Até porque, dessa forma, ela pode explodir em gastrite, hipertensão e outros problemas. É preciso deixar a raiva ir escapando aos poucos para não perder a cabeça num acesso de fúria violento. No cérebro, esse sentimento passa por processos. No primeiro instante vem a ativação, que faz disparar o impulso para a luta. Depois, a moderação, artifício que ajuda a dar a devida importância ao problema. “É nesse momento que avaliamos os dados da realidade, conferindo ao fato a importância devida, sem supervalorizá-lo ou subestimá-lo”, diz a psicóloga Lana Harari (SP). Como toda emoção (palavra vinda do latim que significa “mover-se”), os sentimentos nos tiram de um estado de letargia e fazem tomar alguma atitude. “A ira nos dá coragem e vigor com rapidez, impulsiona a pessoa a tomar uma decisão”, concilia Marilda Novaes Lipp. Outra função é sinalizar ao outro que algo não vai bem. “Sem esse recurso, o indivíduo se torna frágil”, diz a psicóloga Brenda Gottlieb (SP). O segredo está em conseguir segurar as pontas e pensar, um pouquinho mais, antes de se render aos impulsos e só piorar as coisas.

DOME ESSA FERA 
Quando a cólera vem, deve ser dominada, mas não ignorada. Nem tente esmurrar almofadas para descontar a tensão. O psicólogo Jeffrey Lohr, da Universidade do Arkansas (EUA), estudou durante dez anos essa técnica e concluiu que, quanto mais raiva você sente, mais raiva você sente. É preciso lidar com a realidade, mostrando à raiva quem manda em quem. Respire para oxigenar o cérebro e relaxar a musculatura; tente lembrar que nem tudo é uma questão pessoal; e, se possível, saia de perto da situação que a deixou nervosa. O princípio da realidade, do psicanalista Sigmund Freud, diz que a realidade nem sempre gratifica, porque exige que nos adaptemos às dificuldades. Brigar com o chefe, o marido, ou o filho é, às vezes, inevitável. Se nos lembramos de manter o coração leve, no entanto, logo a tempestade dá lugar à bonança.

Inspira, expira e não pira 
Algumas situações realmente nos tiram do sério. Mesmo assim podemos respirar fundo e não só desviar de uma atitude insensata como ainda minimizar o clima pesado no ar

No trânsito...
Se tomar uma fechada, em vez de gritar ou ir à forra, analise: “Será que foi ele que me fechou, ou eu que não sinalizei direito?” 

Numa discussão de trabalho...
Vá tomar um café ou uma água. Acredite: é o tempo de que você precisa para elaborar uma reação mais sensata. 

Quando o chefe disser uma coisa que a enfurece...
Evite a resposta reativa. Ele pode não ter a razão, mas tem o poder. Pergunte-se: “Isso vai me ajudar ou vai agravar ainda mais o problema?” 

Se o filho pequeno fizer birra...
Lance mão do efeito Bellac. “Consiste em falar para a criança, ou qualquer outra pessoa, que ela é muito legal. Então ela se tornará mais fácil de lidar para corresponder à boa imagem que se tem dela”, explica Lana Harari. Mas faça isso de forma sutil, ok? 

Na hora que a internet não estiver funcionando... 
Há mil coisas que você pode fazer sem ela: ver televisão, ler, ligar para uma amiga, arrumar as gavetas, exercitar-se... 

Se o mecânico mexer em algo do seu carro que não havia sido combinado...
Em vez de ter um ataque, procure seus direitos no Procon, na defensoria pública. 

No telefone, há meia hora aguardando pelo atendimento do telemarketing...
“Experimente dizer para si mesma: ‘Cal-ma!’ Quem mantém a calma detém também o controle”, ensina Marilda Novaes Lipp.

Quando o vizinho de cima não parar de fazer barulho...
Lembre-se de que o síndico existe para resolver essas questões. Buscar a figura de um intermediador é mais sensato e útil que agir por impulso. 

Ao se sentir injustiçada...
Reze. A tática funciona para aplacar a raiva, como concluiu uma pesquisa realizada na Universidade de Ohio (EUA), em 2011. Não importa para quem é direcionada a prece: a diminuição da raiva deve-se menos à intervenção divina e mais ao fato de que rezar muda a forma como as pessoas se comportam com relação a situações negativas. 

Quando a fila não andar e você já estiver atrasada...
Dê-se conta de que há coisas que você não pode controlar. Saia e volte outra hora. Se não for possível, recorde-se do mantra: “Dai-me forças para mudar o que pode ser mudado, resignação para aceitar o que não pode e sabedoria para diferenciar entre um e outro”. 

Depois de uma discussão...
Converse com alguém. Uma pesquisa realizada pela Universidade da Califórnia (EUA) comprovou que descrever o sentimento funciona para baixar o ritmo cardíaco e a sensação de irritação. Em qualquer situação que pareça absurda... O bom humor é um precioso antídoto quando o riso vem cheio de aceitação. O palhaço aprende a extrair de uma falha ou imperfeição a sua própria humanidade. Podemos aprender com ele — o que acha?

18/08/2017 - 09:00

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